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08/11/2017

Vinte e dois anos de luta pela terra: A história da família de Dona Xanda e Seu Luis






Maria Alexandrina da Silva, Dona Xanda, como é conhecida, e Luís Vitorino Gomes nasceram no município de Serra Talhada, em Pernambuco. Os dois se casaram em 1984 e tiveram três filhos: Alessandro, Luesla e Alécio. O casal vive atualmente no Assentamento Barra Nova, a 28 km de Serra Talhada, onde cultiva a terra conquistada após vinte e dois anos de luta e resistência.

O começo do casamento foi difícil. O casal morava e trabalhava como diarista na Estação Experimental do Instituto Agronômico de Pernambuco – IPA, em Serra Talhada, onde nasceu o primeiro filho, Alessandro. No segundo ano de casamento, deixaram a estação experimental e foram morar em uma casa alugada na cidade. Na época, Seu Luís deixou o trabalho de diarista e trabalhou pela primeira vez com carteira assinada na construção do Centro de Treinamento e Pesquisa em Pequena Irrigação, campus avançado da Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde hoje funciona a Unidade Acadêmica de Serra Talhada – UAST.

Sem terra para trabalhar, a família enfrentou muitas dificuldades e precisou mudar-se para a cidade de Petrolina, em 1994. Seu Luís trabalhava no corte de cana e nas fazendas de irrigação, enquanto Dona Xanda tomava conta dos filhos e da casa. Agricultora desde criança, Dona Xanda começou a plantar coentro e cebolinha em três canteiros pequenos numa horta comunitária e vender a produção porta a porta no bairro onde moravam. O dinheiro ajudava a sustentar a família e com muito trabalho construíram sua primeira casa. Nessa época, Seu Luis deixou a irrigação e foi trabalhar como podador de árvores.

Após seis anos em Petrolina, a família vendeu a casa que tinha construído e voltou para Serra Talhada para cuidar da saúde da mãe de Seu Luís. Com o dinheiro, compraram um terreno no bairro da Caxixola e construíram uma nova casa. Como ainda não tinham seu pedaço de terra, trabalhavam como arrendados para fazendeiros. Era um trabalho difícil, pois tinham que entregar parte do milho e feijão colhidos para os donos da propriedade (sistema 4:1). Sem esperanças, a família voltou novamente para Petrolina e ficou um ano morando lá. Mas, a vida não melhorou e eles decidiram retornar de vez para Serra Talhada e lutar para conquistar seu próprio pedaço de chão. Nessa esperança, a família juntou-se aos acampamentos do Movimento Sem Terra (MST). Enquanto a sonhada terra não vinha, trabalhavam como arrendados nas fazendas vizinhas. Foi quando, em 2006, um dos donos da terra onde a família estava trabalhando colocou o gado dentro da roça para comer a plantação. Com a roça destruída, a família entrou em desespero.

“Foi uma humilhação pra gente. Todo o nosso trabalho destruído em poucas horas. Sem saber o que fazer, orei a Deus pedindo que ele nos mostrasse um jeito de ter nossa própria terra e nunca mais trabalhar em terra alheia” (Dona Xanda)

A CONQUISTA DA TERRA 

Quase sem esperança de uma vida mais digna e desesperada com a perda da roça, Dona Xanda recorreu à sua fé para juntar forças e continuar lutando. Então, no mesmo ano de 2006 a família foi convidada pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais – STR para visitar a Fazenda Barra Nova que estava sendo negociada através do Plano Nacional do Crédito Fundiário (PNCF). Era a oportunidade que a família esperava há muitos anos. Entusiasmados e auxiliados pelo STR, eles se juntaram com outras cinco famílias, formaram a Associação das Mulheres Agricultoras do Assentamento Barra Nova - sendo Dona Xanda eleita a primeira presidente - e compraram a fazenda que tinha 145 hectares de terra, uma casa de alvenaria, um poço amazonas e um açude. O pagamento foi dividido em doze parcelas anuais, com três anos de carência.

Após a divisão da terra em seis partes iguais, Dona Xanda, Seu Luis e os três filhos se mudaram para a única casa construída na propriedade. O espaço pequeno era dividido com mais três famílias. Somente em 2008 foi liberado o recurso do Crédito Fundiário para a construção de novas casas para as moradoras e moradores, sendo que a família de Dona Xanda preferiu reformar a casa antiga e continuar morando no local. O dinheiro liberado também foi usado para aquisição de equipamentos de irrigação (bomba e canos) e compra de pequenos animais (70 cabras e 01 reprodutor). A energia elétrica só chegou às casas novas três anos depois. Em 2007, Dona Xanda e Seu Luís se associaram ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais – STR.

“O dono da fazenda liberou pra gente plantar e usar a água do poço mesmo antes da venda ficar pronta. Depois ele deu duas cabeças de cabras pra gente. Foi bom porque ajudou a gente a começar a vida”. (Seu Luís)

O recomeço da vida no assentamento não foi fácil, mas a certeza de morar em sua própria terra impulsionou a família a trabalhar com dedicação e coragem. Esse trabalho foi facilitado a partir do acesso às políticas públicas como o PRONAF, que financiou a compra de animais, forrageiras, arame para cercas e construção de apriscos, e da assistência técnica oferecida por instituições como a Associação Plantas do Nordeste – APNE e Centro de Educação Comunitária Rural – CECOR. A APNE implantou no assentamento o Plano de Manejo Florestal Sustentável, orientando às famílias a explorar a lenha da Caatinga de forma correta e legal, sem provocar desmatamento. A lenha extraída até o ano de 2011 era comercializada gerando renda para as famílias.

ENTRADA NA FEIRA AGROECOLÓGICA

Com orientação do CECOR, por sua vez, a família de Dona Xanda conheceu a Agroecologia e implementou sua produção de verduras, legumes e hortaliças. A produção, que antes era vendida somente porta a porta, passou a ser comercializada na Feira Agroecológica de Serra Talhada, em 2012. Na mesma época, foram construídos no assentamento cinco cisternas de placas de 16 mil litros (garantindo água de beber e cozinhar) e quinze tanques de cimento para a produção. Em 2013, o assentamento recebeu uma caixa d’água e canos para irrigação do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA).

A entrada na Feira Agroecológica transformou a vida da família de Dona Xanda e de outras famílias do assentamento. Inicialmente, o trabalho era coletivo. As famílias se juntavam para plantar e cuidar dos canteiros, e no sábado levavam a produção para vender na feira. Dessa forma, a produção era mais diversificada e em maior quantidade, e os lucros ajudavam a proporcionar uma vida com mais qualidade para as agricultoras e agricultores.

“O trabalho coletivo fazia a diferença na vida da gente, mesmo em ano de seca sempre tinha alguma coisa pra vender na feira.” (Dona Xanda)

“A feira agroecológica é muito importante pra nossa vida. É de lá que a gente tira nossa renda toda semana.”

ESTIAGEM PROLONGADA

A partir do ano de 2013 família começou a sentir os efeitos da estiagem. Sem chuvas, o açude começou a secar, a água diminuiu no poço e o calor prejudicava a produção dos canteiros. As roças de milho e feijão não vingaram e o rebanho de bovinos morreu mais da metade. E, para piorar a situação, o governo cortou o benefício do Bolsa Família que Dona Xanda recebia todo mês.

Sem ter outra opção, a família precisava continuar levando seus produtos para a feira, de onde tirava o sustento toda semana. Usando a água guardada nos reservatórios para regar os canteiros, eles foram resistindo às dificuldades e, aos poucos, conseguiram até comprar seu primeiro veículo, trocado dois anos depois. Com a compra do veículo, ficou mais fácil e prático transportar a mercadoria para a feira nos sábados.

CISTERNA DE PLACAS

Em 2016, dois acontecimentos importantes marcaram a família: Dona Xanda se aposentou como trabalhadora rural e a família recebeu uma cisterna de placas de 52 mil litros para a produção. Agora, em 2017, outra notícia boa chegou para a família: a liberação da venda da lenha do plano de manejo sustentável da Caatinga que vai incrementar a renda.

“Eu agradeço a Deus pelas minhas verduras, porque mesmo depois de ser aposentada, são elas que garantem o nosso sustento”. (Dona Xanda)


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